sábado, 23 de fevereiro de 2013

Um Puto (de: J.A.Afonso)



Os sonhos de Abril,
os sonhos de Abril,

nos olhos dum puto!...



- O que é que ruíu...
Quem os destruiu,

quem lhes «deu um chuto»???



- Era a Primavera,
no tempo em que era

possível sonhar!...



Era um tempo novo,
«o tempo de um povo,

cansado de esperar».



- Um cravo vermelho,
servia de espelho,

ao puto risonho!...



...E o puto cresceu,
mas "deu no que deu":

- Um homem tristonho!...



Que o cravo morreu...
Esmagaram o cravo...

- Mataram-lhe o sonho!



(J.A.Afonso)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ausência do tempo (de: J.A.Afonso)

Num longo e terno abraço,
estreitei teu corpo esguio,
"esmagando-te no peito",
como se fosse um reencontro
ou uma despedida...
Esqueci-me do presente,
penetrei no vazio,
na "ausência do tempo"
e deixei-me lá ficar...
Como se fosse, quem sabe,
o último momento da vida.

Sorriste-me entre-lágrimas
de verdadeira dor,
beijáste-me de lábios salgados,
de pranto e de amor.
Desse amor que te sei...
Desse amor que te dei...
Desse amor que existe
não importa como,
que persiste não importa porquê!...

Na ausência do tempo...
Aos poucos o teu sofrimento serenou,
disseste palavras bonitas, palavras de fé!...
E eu ?...
- A única coisa que queria dizer-te...
É que vou estar sempre aqui!
Sempre...Aqui ao pé!...
 (J.A.Afonso)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sou um "bandoleiro" (de: J.A.Afonso)

Sou um "bandoleiro",
sou um guerrilheiro
"escondido na mata",
que ferido de guerra,
se oculta na serra
"sob uma cubata"!...
- Que há gente que sei,
que tem como lei,
"a lei da chibata"!

Sou um "bandoleiro",
sou ágil, certeiro,
na minha cilada...
Sou um "pistoleiro",
de rosto sisudo,
«à espera de tudo,
à espera de nada»!...
- Que há gente "sangrenta",
que só nos enfrenta,
"ao tiro, à rajada"!

Sou um "bandoleiro",
que espreita, que espia,
na tarde sombria,
por uma "emboscada",
que da noite fria
ao nascer do dia
é sempre aguardada!...
- Que há gente ímpia,
que nos "sorripia",
a voz que é sagrada!...

Sou um guerrilheiro,
num desfiladeiro,
no "ardil da manha",
que a minha trincheira,
é esta ribeira,
bem junto à montanha!...
- Que há gente "mordaz",
que há gente capaz
"de tanta façanha"...

Sou um "bandoleiro",
sou um "cavaleiro"
sem "eira-nem-beira",
que ama a liberdade,
que ela um dia há-de
«ser uma bandeira»!...
- Que há gente que a "queima"...
Que há gente que teima
«lançá-la à fogueira»!


(J.A.Afonso)